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Nattan: 'Quero ser visto como um pilar para que a música nordestina tenha ido mais longe'

Capa de junho da Quem, o artista relembra o início da carreira, detalha o relacionamento com Rafa Kalimann, comenta as descobertas na paternidade e fala das responsabilidades de ser um dos nomes da nova geração que leva o São João para ainda mais pessoas Por Gabriela Antualpa

Nattan: 'Quero ser visto como um pilar para que a música nordestina tenha ido mais longe'
Capa de junho da Quem, o artista relembra o início da carreira, detalha o relacionamento com Rafa Kalimann, comenta as descobertas na paternidade e fala das responsabilidades de ser um dos nomes da nova geração que leva o São João para ainda mais pessoas Por Gabriela Antualpa

Há artistas que sustentam personagens românticos, misteriosos ou criam 'personas' imprevisíveis nos holofotes. Esse não é o caso de Nattan: toda a espontaneidade que as letras despreocupadas e postura alegre nos shows transparecem é exatamente o que um fã, amigo ou jornalista encontra fora dos palcos. Com uma energia invejável, o artista cearense se considera 'acessível', mesmo sendo uma das vozes mais presentes nas playlists brasileiras quando o assunto é forró.

Um dia em São Paulo, outro em Fortaleza, e o próximo na casa de um estranho que o convidou para um churrasco no interior. É assim que ele consegue manter os pés no chão em meio à fama que ganhou desde o lançamento de Tem Cabaré Essa Noite, há quase quatro anos. "Vivo um dia de cada vez de um jeito que poucos artistas vivem, tão intensamente. Sou ruim de agenda, porque gosto de acordar e viver o dia como ele vier. Se der na telha de ir a um riacho, eu vou", ri. "Sempre abracei meus fãs e sempre fui o mesmo em casa, no palco, em todo lugar. O fã não gosta de artista inacessível, ele quer alguém com quem se identifique".

O ano de 2026 tem sido uma seara de novidades para ele: tem descoberto um novo estilo (com um corte de cabelo do qual se arrependeu, inclusive), novo vocabulário, as dores e delícias da paternidade e de viver um amor que se transforma a cada dia. É com o típico bom humor e leveza que o artista de 27 anos aborda nessa entrevista temas como os perrengues de início de carreira, seus maiores sonhos, a agenda apertada de São João e a vida a três com Rafa Kalimann e a filha do casal, Zuza.


"O lado difícil de ser famoso é ficar longe de casa, da família, da Rafa, da minha mãe. Às vezes você abdica de sonhos. Eu amo viajar, mas quando chega Carnaval, São João, você tem que viver ainda mais intensamente. Mas amo a música, o palco, tudo isso. Eu escolhi", garante.


"Sempre abracei meus fãs e sempre fui o mesmo em casa, no palco, em todo lugar"

A estrada até aqui foi longa. Sem nem mesmo saber tocar instrumentos, sentia que eles 'o chamavam'. Tocava piano na igreja que frequentava na sua cidade, Sobral, a quinta mais populosa do Ceará. Depois, sonhou que tocava um violão e acordou implorando para a avó pelo objeto. Com a ajuda de videoaulas no Youtube que não começaram tão bem assim, ele descobriu o amor pela música.


"Aquilo fluía de uma maneira que eu não sabia explicar", lembra. Nattan começou a tocar na escola, virou 'suplente' de cantores de barzinhos e, de repente, tinha compromissos musicais todos os dias da semana ao ponto de conseguir pagar sua própria mensalidade na escola. "Pensei: 'se a música pode me proporcionar isso ainda no barzinho, imagina em grande escala?' Foi aí que não quis mais saber de nada".

Com 11 milhões de seguidores no Instagram e mais 11,4 milhões de ouvintes no Spotify, só entendeu a proporção que a carreira havia tomado em junho de 2025, quando ganhou o prêmio de melhor show do Pedro Leopoldo Rodeio Show, em Minas Gerais. Desde então, realizou mais sonhos: gravou um CD em Las Vegas e agora explora a cultura dos paredões nordestinos com o projeto Paredão do Nattan.


A vida já agitada do dono do hit Morena ganha uma nova proporção na época de São João - em um mês, fará mais de 30 shows ao redor do Brasil. Se cansa? Com certeza. Mas algo não deixa seu sangue esfriar: "Esse espírito nordestino do São João que nos invade, as fogueiras, as bandeirinhas, as casas pintadas, isso dá uma alegria que o cansaço passa despercebido. Quando você pisa naquela escada do palco, e vê todo mundo batendo palma, gritando seu nome, o cansaço vai embora".

Ser uma das vozes da nova geração do forró - e, consequentemente, do São João - tem grandes responsabilidades: a maior delas é levar a música e cultura para longe, mas sem perder as referências nem o respeito por quem veio antes. "Essas pessoas viveram na época analógica, para ter 1 milhão de plays, tinham que distribuir 1 milhão de CDs. É respeito total - desde Luiz Gonzaga até o Xand Avião, que hoje é um padrinho meu e me ensina muita coisa. A nossa maior responsabilidade é colocar o nosso molho, a nossa identidade, mas sem perder as raízes, e fazer com que a nossa música chegue nos quatro cantos do mundo".


"A nossa maior responsabilidade é colocar o nosso molho, a nossa identidade, mas sem perder as raízes, e fazer com que a nossa música chegue nos quatro cantos do mundo"

A vida amorosa de Nattan é manchete desde dezembro de 2024, quando assumiu um relacionamento com Rafa Kalimann, apresentadora e participante do BBB 20. Dois 'emocionados', como ele conta, estavam decidindo o nome dos filhos antes mesmo de completarem um ano de namoro.

"Quando eu soube que era ela, me apeguei muito rápido. Em pouco tempo eu já conhecia toda a história dela, a família, de onde ela veio. Chegou um momento que eu pensei: 'Não tenho mais o que saber dessa mulher. É ela mesmo'. Aí sentamos, conversamos, e eu falei: 'Meu sonho é ser pai, seu sonho é ser mãe - por que não temos uma filha?'. E decidimos. Quando duas pessoas se escolhem de verdade e estão dispostas a abdicar de algumas coisas para ser uma família, elas chegam longe. O importante é ter unidade, porque dentro de um relacionamento vão existir erros, falhas, pedidos de desculpa dos dois lados. Quando você decide estar junto, o problema de um é problema dos dois - e tem que resolver junto". Ele entendeu que o relacionamento seria para a vida toda quando passaram pela primeira dificuldade juntos. "Não tem nada mais forte num casal do que ser parceiro na dificuldade", garante.


Nattan diz que Rafa o ensina muitas coisas - sejam palavras estrangeiras, como 'cool', 'street', termos como 'transcender' ou 'reluzir', até refogar o arroz. Os dois estão aprendendo juntos a lidar com a chegada de Zuza, que nasceu em janeiro deste ano. "Sendo pai de primeira viagem, sem ter tido uma referência paterna, houve momentos em que eu estava perdido. E tudo bem. Você passa por cima das pedras, aprende e se torna uma pessoa melhor", detalha.


Um dos atuais representantes do forró eletrônico, que usa guitarras ao invés das clássicas zabumbas e mescla gêneros musicais, ele cita suas referências diversas vezes ao longo da entrevista. Nomes como Mastruz com Leite, Xand Avião, Wesley Safadão, Dorgival Dantas, Desejo de Menina são vistos como precursores de seu caminho.


Olhando para frente, quer ser visto também como um capítulo importante da história forrozeira. "Quero que as pessoas olhem para mim e vejam que fui um pilar para que a música nordestina chegasse tão longe fora do Brasil. Que falem: 'O Nattan foi fundamental para que o forró furasse bolhas, rompesse barreiras e fosse ouvido lá fora'. Pode levar 20 anos ou mais, mas eu quero ser esse pilar. A música nordestina já está sendo vista, mas quero que ela seja reconhecida 100% como música nacional".

Como a música entrou na sua vida?

Tudo começou quando eu comecei a tocar na igreja. Sempre tinha um piano lá e, mesmo sem saber tocar, eu ficava mexendo nele nos momentos vagos. Foi aí que me apaixonei pela música. Depois, sonhei tocando violão e acordei pedindo um para a minha avó desesperadamente. Ela disse que não tinha condições, mas eu passei um mês inteiro perturbando até ela ceder. Como não tinha como pagar aula, comecei a aprender por videoaulas no YouTube. No começo eu tocava muito mal, o pessoal até fechava a porta do quarto, mas com uma semana já estava tocando bem. Aquilo fluía de uma maneira que eu não sabia explicar. Levei o violão para a escola, comecei a tocar para os colegas e um dia cantei uma música. O pessoal gostou tanto que, no intervalo, todo mundo pedia para eu cantar.


Quando veio a virada profissional?

Tinha um amigo meu chamado Netinho que tocava no barzinho profissionalmente. Eu ia com ele só para ver, e quando ele ia ao banheiro, eu cantava uma música. O pessoal ficava surpreso com um moleque tão novo tocando e cantando. Fui pegando gosto e decidi que queria tocar lá também. Pedi para minha avó comprar os equipamentos, mas ela não tinha condições. Aí um percussionista do barzinho me disse: "Nattan, eu te alugo a caixa de som, o violão elétrico, o microfone. Você canta e eu te arrumo um local." Comecei a tocar num restaurante, ganhava R$ 100 por três horas, dava R$ 50 de aluguel e ficava com R$ 50. Fui crescendo, fui para outros lugares, e quando vi já estava tocando quinta, sexta, sábado e domingo - tudo isso estudando ao mesmo tempo.


Tem alguma história marcante dessa época?

Tem uma que eu sempre gosto de contar. Um dia minha mãe me acordou e disse que não conseguia mais pagar o colégio particular onde eu estudava. Eu tinha uma caixa de sapato onde guardava o dinheiro que ganhava tocando. Peguei o dinheiro e falei para ela: "A partir de agora você não precisa mais pagar minha escola, eu pago - e ainda quero te ajudar." Ela ficou impressionada. E eu pensei: se a música pode me proporcionar isso ainda no barzinho, imagina em grande escala? Foi aí que não quis mais saber de nada. Fiquei imerso na música, viajei para Fortaleza, lancei um álbum na pandemia, todo mundo regionalmente começou a ouvir e gostar - e foi desse álbum que tudo aconteceu.

Você passou de Nattanzinho para Nattan em determinado momento. Como foi essa transição?

Até hoje o pessoal ainda me chama de Nattanzinho, porque existe o bordão "o Nattanzinho falando de amor", que tomou conta de tudo. No Nordeste é muito forte. Mas surgiu também outro artista chamado Natanzinho Lima, do arrocha, e precisava me diferenciar. Então decidimos migrar pro Nattan. E tem uma coisa legal: Nattan é um palíndromo, o mesmo nome lido de frente para trás.


Tem Cabaré Essa Noite foi lançada em 14 de julho de 2022 e, três anos depois, você já era top 1 no Brasil e um dos maiores nomes do gênero. Como tem sido lidar com essa fama?

Eu vivo um dia de cada vez de um jeito que acho que poucos artistas vivem tão intensamente. Sou ruim de agenda porque gosto de acordar e viver o dia como ele vier. Se der na telha de ir a um riacho, eu vou. Sempre abracei meus fãs e sempre fui o mesmo em casa, no palco, em todo lugar. Faço questão de atender fãs no camarim, chamo quem leva cartaz para assistir ao show de cima do palco. Acho que o fã não gosta de artista inacessível - ele quer alguém com quem se identifiquem. Então mostro a vida real na internet: brincando com minha mãe, comendo de madrugada, comendo carne de lata. Esses dias viralizou e o pessoal falava: "Meu Deus, eu como isso também todo dia". O lado difícil é ficar longe de casa, da família, da Rafa, da minha mãe. Às vezes você abdica de sonhos. Eu amo viajar, mas quando chega Carnaval, São João, você tem que viver ainda mais intensamente. Mas eu amo a música, amo o palco, amo tudo isso que eu escolhi.

"O que eu consegui até hoje é 0,1% do que eu quero. Ainda tem muito chão"

Quando você percebeu que estava famoso de verdade?

Eu sempre gosto de ir ao mercado de madrugada, a Rafaella odeia. Mas certa vez fomos a um 24 horas às 4 horas da manhã, não tinha quase ninguém, e mesmo assim as pessoas me reconheceram. Mas acho que o momento mais marcante foi quando fui fazer shows no Sul e nos rodeios. Pisei no rodeio de Pedro Leopoldo, com vários artistas gigantes do sertanejo, e ganhei como melhor show do evento. Aí eu falei: "Realmente o negócio está pegando." Depois veio o Nattan em Vegas, com a Anitta, e agora o Paredão do Nattan. Cada projeto desse tamanho - com cenografia, investimento, todo um trabalho por trás - mostra que estamos nos comportando como grandes.


Se considera grande?

Não. Chegam e falam: "Nattan, você não tem noção do tamanho que é". Mas eu ainda paro no meio da rua para tomar caldo de cana com pastel e juntar a galera. Eu sempre falo: se soubermos de onde viemos, o que somos hoje e onde queremos chegar, vamos ter sucesso. E o sucesso exige equilibrar tudo e trabalhar muito duro, colocando Deus na frente. O que eu consegui até hoje é 0,1% do que eu quero. Ainda tem muito chão.


Vamos falar do Paredão do Nattan. Qual é a importância de reunir nomes da nova geração e clássicos num mesmo projeto?

Primeiro, foi muito importante a escolha do nome. O paredão faz parte da nossa cultura nordestina e muita gente ainda não conhece. Está na vida de quem está entrando na adolescência, nos esquentas de vaquejada, nos esquentas de São João. Antigamente era sanfona, triângulo e zabumba. O paredão é mais moderno e mais prático: você chega, liga, bota o que quiser, todo mundo se reúne em volta e vira festa. Escolhi Fortaleza para gravar porque foi onde tudo começou para mim - e para muita gente é a capital do forró. Chamei Wesley e Xand, que são dois pilares do forró nordestino, o Zé Vaqueiro, que está numa ascensão enorme, o Rei Vaqueiro, o Edson Lima, que é um nome gigante no gênero, e também o Eduardo Costa, uma figura emblemática do sertanejo, que trouxe o sertanejo em forró para dentro do projeto. Foi um projeto voltado pro Nordeste, mas que o Brasil inteiro consome.

Qual é o papel dessa nova geração na modernização do forró?

Queremos levar essa música para além das bolhas, deixando o forró um pouco mais jovem, com alguns elementos eletrônicos, sem perder as raízes -- Luiz Gonzaga, Elba Ramalho. O Mastruz com Leite foi a primeira banda que tirou a zabumba, a sanfona e o triângulo e colocou guitarra, modernizou tudo. Na época chamaram de louco. Mas foi esse passo que gerou o Xand, o Wesley, o Nattan, o Dorgival Dantas, o Desejo de Menina -- tudo isso existe por conta daquela decisão. Estamos tomando esse mesmo passo agora. E não é à toa que estamos chegando nos rodeios, no Sul do país, na juventude. As pessoas nos abraçam e, através da gente, conhecem a cultura, o São João, o Nordeste.


E o São João em si, o que ele representa para você?

O São João hoje no Nordeste virou o maior festival de música do Brasil. E a cultura do São João não é só musical - é religiosa, é comunitária. Quando você vai pro Nordeste, você vê as fogueiras na rua, as pessoas bordando camisa, as comidas típicas, as cidades, os estados, a cultura. Movimenta o país inteiro. Amigos meus de São Paulo me falam: "Preciso conhecer o São João do Nordeste." Pode replicar em outros lugares, mas não é igual. Você tem que ir pro calor do Nordeste. Para mim, é a maior e a melhor festa do ano.


Como está sua agenda de São João? Quantos shows você tem previstos?

Tenho 30 shows. A última vez que vi estava em 28, mas já entraram mais dois. E eu acredito que daqui para o início do mês aparecem mais cinco, por aí.


Como você aguenta esse ritmo? Como são os preparativos?

É muito cansativo, mas quem trabalha com o que ama não tem como. Fazer 30, 33, 35 shows num mês - um show por dia, às vezes dois, em lugares diferentes, comendo o que tem na rua, viajando de ônibus ou avião, dormindo pouco para chegar no próximo. Uma correria. Mas acho que esse espírito nordestino, esse espírito do São João que nos invade, as fogueiras, as bandeirinhas, as casas pintadas - isso dá uma alegria que o cansaço passa despercebido. Lá pro 25º, 26º show é que pesa de verdade. Mas quando você pisa naquela escada do palco e vê todo mundo batendo palma, gritando seu nome, aí o cansaço vai embora. O povo nordestino é caloroso demais.


"O espírito do São João dá tanta alegria, que o cansaço passa despecebido"

Qual é a maior responsabilidade de ser um dos representantes dessa nova geração que está modernizando o forró?

A maior responsabilidade é levar a nossa música e cultura para longe, mas sem perder as referências e sem perder o respeito por quem veio antes. Não é porque você chegou mais longe que você não deve pedir a bênção para quem abriu esse caminho. Essas pessoas viveram na época analógica, distribuindo CD de cidade em cidade. Para ter 1 milhão de plays, tinham que distribuir 1 milhão de CDs. É respeito total - desde Luiz Gonzaga até o Xand, que hoje é um padrinho meu e me ensina muita coisa. A nossa maior responsabilidade é colocar o nosso molho, a nossa identidade, mas sem perder as raízes, e fazer com que a nossa música chegue nos quatro cantos do mundo.

E como tem sido essa abertura para colaborações com outros gêneros?

Antes tinha muito disso de que os escritórios falavam que artista tal não podia fazer feat com outro. Hoje todo mundo está cantando junto, misturando forró com pagode, sertanejo, funk - e a música só tem a ganhar. Eu tenho amigos que nunca imaginei ter me chamando para gravar. Não queremos roubar o espaço de ninguém, mas abrir caminho também para que mais gente conheça essa música.

Além da mudança de nome, também cortou o cabelo.

Mudei, e me arrependi. Pode escrever em maiúsculo. Eu tô na minha cama usando boné - não existe isso (risos). Minha identidade era muito forte com o meu cabelo. Eu sempre achei que era bonito, mas quando o cabelo foi embora eu olhei e pensei: "O bonito era o cabelo, não era eu." Cortamos numa ação de carnaval, foi legal na época, mas eu não sabia que ia demorar tanto para crescer de volta. Fico vendo vídeos do meu cabelo grande com saudade. Me arrependi de ter cortado.


"Não quero roubar o espaço de ninguém, mas abrir caminho para que mais gente conheça essa música"

Deixaria o cabelão e a barba ou só um dos dois?

Quando deixar o cabelo crescer de novo, ainda quero manter a barba, mas bem baixinha, bem discreta. Não quero ficar com cara de homem das cavernas. Tem que ter equilíbrio.


E a moda? Suas roupas também mudaram.

Estou bem com a moda. Tenho o Thico, que é meu stylist, e ele fica doido comigo porque eu ainda não entendo muito. Mas eu confio nele. Acho importante se aprofundar no mundo da moda e influenciar pessoas através dela também. Para o São João, queremos criar uma identidade que modernize o visual típico da festa sem perder as raízes nordestinas. Pedi para colocar pedras num chapéu de palha -- palha com pedra, entrou no mundo da moda. Quem sabe pessoas de alta moda comecem a levar um chapéu ou uma blusa xadrez e falar: "Isso remete ao São João e está na moda." Nossa cultura tem que estar em todos os lugares. Uso umas botas que machucam meu pé, calça boca de sino, uma calça que parece a do Pica-Pau -- mas tô usando. Estou disposto a me aprofundar mais.


O seu slogan é 'Nattanzinho falando de amor' desde sempre. Como é para você falar sobre sentimentos, ser um 'emocionado' declarado?

Eu sempre fui um cara apaixonado, sempre botei meus sentimentos para fora. Mando flor, chamo para viajar, abraço mesmo. Não é à toa que eu e a Rafaella temos uma filha linda. Eu acredito que tento transmitir isso na maioria das minhas músicas. Escrevo muita coisa, tenho composições guardadas que ainda não mostrei para ninguém e um dia vou mostrar pro mundo. E tem uma coisa que aprendi: não precisa estar vivendo aquilo para sentir. Quando eu entro no estúdio, fecho o olho, decoro a história da música e me coloco dentro dela. É a famosa lágrima na voz. Odeio gravar uma música só por que tem que gravar - gosto de sentir. Chego antes, escuto várias vezes, canto várias vezes, até passar o sentimento de verdade.


"Eu sempre fui um cara apaixonado, sempre botei meus sentimentos para fora"

Você e a Rafa se conheceram em 2018, e de um jeito bem inusitado, né?

É. Eu queria impressionar os meus amigos do interior, tirei uma foto com ela e fui contar que tinha ficado com ela. Mentira total.


Quando soube que ela ia ser a mulher da sua vida?

Foi quando passamos pela primeira dificuldade de verdade. Aquilo que para qualquer outro casal teria batido muito forte, decidimos enfrentar juntos, como parceiros. E aquilo que parecia gigante virou um grão de mostarda. Não tem nada mais forte num casal do que ser parceiro na dificuldade - não só nos momentos felizes e nas viagens, mas quando o negócio aperta. Quando o problema é dela, eu tomo essas dores e viramos um só para resolver. Quando é meu, ela está do meu lado. Foi aí que eu vi que era ela mesmo.


O que mais aprendeu com ela?

Aprendi a refogar o arroz. Ela me ensinou que primeiro tem que colocar o alho, a pimenta, o óleo, refogar o arroz, e só depois colocar a água. No Nordeste, 90% das pessoas fazem o contrário: coloca a água, a cebola, o sal, a pimenta, ferve e joga o arroz. Mas são muitas coisas, da mais básica até as mais importantes.


"Quando duas pessoas se escolhem de verdade e estão dispostas a ser uma família, elas chegam longe"

Você foi quem puxou o papo de terem filhos juntos antes de um ano de namoro. Por quê?

Quando eu soube que era ela, me apeguei muito rápido. Em pouco tempo eu já conhecia toda a história dela, a família, de onde ela veio. Chegou um momento que eu pensei: "Não tenho mais o que saber dessa mulher. É ela mesmo." Aí sentamos, conversamos, e eu falei: "Meu sonho é ser pai, seu sonho é ser mãe - por que não temos uma filha?" E decidimos. Quando duas pessoas se escolhem de verdade e estão dispostas a abdicar de algumas coisas para ser uma família, elas chegam longe. O importante é ter unidade, porque dentro de um relacionamento vão existir erros, falhas, pedidos de desculpa dos dois lados. Quando você decide estar junto, o problema de um é problema dos dois - e tem que resolver junto.

E os dois estão aprendendo juntos a lidar com a paternidade e a maternidade. Vimos sobre uma polêmica recente relacionada ao documentário da Rafa. Queria ouvir a sua versão.

O documentário é sobre a Rafaella, e eu estou ali o tempo inteiro ao redor por ser pai. Ela quis mostrar o que 90% das famílias passam - uma maternidade real. Existe um momento em que a mulher se olha no espelho e não se reconhece, um momento em que amamentar dói e ela não sabe se é assim mesmo. Comigo também foi assim: sendo pai de primeira viagem, sem ter tido uma referência paterna, houve momentos em que eu estava perdido. E tudo bem. Você passa por cima das pedras, aprende e se torna uma pessoa melhor. A Rafa tentou mostrar isso de maneira real, e às vezes as pessoas distorceram o que ela quis dizer. Ela falou que se sentia muito sozinha - mesmo comigo dentro de casa, ela se sentia só. E eu entendo: ela ficava a semana inteira em casa, eu chegava morto de cansaço do show, ia dormir, acordava, ficava um pouco com ela e logo tinha que viajar de novo. Eu poderia, nos momentos em que estava em casa, ter estado literalmente mais próximo - no cinema com ela, tentando chamar atenção dela de outro jeito. Fui lá no documentário e falei isso abertamente. Dei o meu relato como pai de primeira viagem, como ser humano que erra. E fui mal interpretado, como se eu não pudesse errar. Mas eu torço muito pela Rafaella, estou do lado dela. O documentário está muito especial, e a mensagem está chegando para as mães que se identificam com tudo aquilo.

É o ônus e bônus da fama, não acha?

Exatamente. Nunca vai ser perfeito. Sempre vai ter uma bolha de pessoas que vai distorcer. Mas faz parte e está tudo bem.


E vamos falar do fenômeno Zuza?

É linda, viu? O olho azul veio da avó dela - a mãe da Rafa tem um olho azulão, e o olho da própria Rafa era azul quando era bebê e depois ficou verde. O meu aqui nem mosca pousa. Mas ela puxou o meu tamanho: está com 4 meses e já está pesando 11 kg. Compramos um carrinho de 9 kg e já não serve mais, tivemos que doar.


O que ela já te ensinou sobre você mesmo?

A Zuza foi uma oportunidade. Uma oportunidade de sentir o maior amor do mundo e de ser o pai que eu nunca tive. Graças a Deus é uma menina - porque uma menina é voltada ao pai, e o carinho que você sente é inexplicável. Eu quero participar de todos os momentos da vida dela: deixar ela na escola, ver nascer o primeiro dentinho - que está nascendo agora, com 4 meses. Para mim, a Zuza é uma oportunidade de fazer tudo melhor. Daqui a 10, 15 anos, ela vai olhar para o que eu fiz e vai ver que fui eu. Então tudo que eu for fazer, quero fazer com excelência.


E se ela decidisse seguir carreira artística?

Ia morrer de amor. Mas eu acho que ela vai ter um pé no Nordeste - ela é cearense com mineira. Se gostar de sertanejo, eu vou gravar a música que ela quiser, mas no ritmo do forró. Vai ter que ter equilíbrio. E estímulo não vai faltar: ela já vai muito nos meus shows e escuta forró dentro de casa todo dia.


"A Zuza foi uma oportunidade. Uma oportunidade de sentir o maior amor do mundo e de ser o pai que eu nunca tive"

Vocês pensam em fazer festa de casamento? Tecnicamente vocês já estão casados.

Não planejamos muito, vamos vivendo. Agora é o momento de curtir a nossa filha, estar mais próximos. A Rafa está voltando a trabalhar, então é um momento de produzir - ela de lá, eu de cá - e ao mesmo tempo equilibrar para estar juntos aproveitando cada momento da Zuza. A festa ainda não aconteceu, mas como você disse, já somos quase casados.


E os projetos futuros? O que vem por aí a curto e longo prazo?

Tem um show que estou selecionando músicas para gravar em Trancoso, fechando com chave de ouro. E tem uma label que vai passear pelo Brasil inteiro, um projeto intimista, para cerca de 2 a 3 mil pessoas. Esse projeto vai dar o que falar.


Daqui a 20 anos, o que quer que as pessoas se lembrem quando ouvirem seu nome?

Eita, daqui a 20 anos eu vou ter 47 anos e vou ter feito tanto sucesso. Eu quero que as pessoas olhem para mim e vejam que fui um pilar fundamental para que a música nordestina chegasse tão longe - e chegasse fora do Brasil. Que falem: "O Nattan foi fundamental para que o forró furasse bolhas, rompesse barreiras e hoje seja ouvido lá fora." Pode levar 20 anos ou mais, mas eu quero ser esse pilar. A música nordestina já está sendo vista, mas eu quero que ela seja reconhecida 100% como música nacional e além - fora do Brasil também.


Créditos:

Texto: Gabriela Antualpa (@gabiantualpa)

Fotos: Luis Dóro (@luis.doro)

Direção criativa: João Pessoni (@joaopessoni)

Styling: Thiago Ferraz (@thico)

Beleza: Leo Almeida (@leoalmeidamk)

Set Designer: Ricardo Ishigama (@cenna_visualecenografia)

Direção geral: Camila Borowsky (@camila_borowsky)

Produção executiva: Mateus Phyno (@phynocomph_)

Edição de texto: Ana Carolina Moura (@anacmoura)

Assistência de fotografia: Pedro Saad (@pedrosaad)

Assistência de styling: Luan Gabriel (@lu_lluan)

Assistência de beleza: Tamara Hitzler (@tamarahitarts) e Vinicius Elisio (@vinnysouzamake9)

Vídeos e design de capa: Eduardo Garcia (@eduardogarda)

Retoque: ON RETOUCH (@on.retouch)

Catering: Ary Comidas (@arycomidas)

Assistentes de set: Bruno Alves (@bruno.alves8618) e Patrick Ferreira (@patrickkferreira)